sábado, 21 de setembro de 2013



NOVENÁRIO EM HONRA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

—Imprimatur.

Fortaleza, 11-11-34.

MONS. J. A. FURTADO Pro-Vigario Geral

ÁS ALMAS PIEDOSAS

Propagar o culto ao Divino Espirito- Santo é a razão deste livrinho que vai acompanhado dos votos ardentes de quem anseia ver tributada uma devoção con­digna ao Santificador das almas.

Lamenta-se por toda a parte que o po­vo cristão ignore o dogma da habitação em nós da terceira pessoa divina.

Em boa hora aparece este Novenário e é de esperar que da difusão dele venha resultar melhor conhecimento da preciosidade da graça entre os fiéis.

Queira o Espirito Santo abençoar este trabalhozinho feito em sua honra e ilu­mine os corações com os seus divinos dons.

BIBLIOGRAFIA

The Forgotten Paraclete—Mgr. Landrieux

La Mission de 1′Eprit Saint—E. Manning — Archevêque de Westminster.

Dévotion au Saint-Esprit — Friaque.

Catecismo Católico — Dcharbe.

L’année liturgique — Dom Gueranger.

A alma Eucaristica.


ORAÇÃO PREPARATÓRIA

Vinde Santo Espirito, enchei os cora­ções de vossos fieis e acendei neles o fogo de vosso divino amor.

V — Enviae, Senhor, o vosso Espirito e tudo será creado.

V — E assim renovareis a face da terra.

OREMOS

Deus, que ilustraes os corações dos vos­sos fieis com a luz do Espirito-Santo, fa­zei que pelo mesmo Espirito saibamos o que è reto, e nos alegremos sempre com sua consolação.

Amen.

ORAÇÃO

Espirito-Santo, divino Paracleto, Pae dos pobres, consolador dos aflitos, Santificador das almas, eis-me prostrado em vos­sa presença; eu vos adoro com a mais profunda submissão e repito mil vezes, com os Serafins que rodeiam o Vosso trono: Santo! Santo! Santo!

Vós que enchestes de imensas graças a alma de Maria, e inflamastes de santo zelo os corações dos Apostolos, dignai-vos também abrazar o meu coração com o vosso amor. Aparecestes em forma de nuvem, de lingua de fogo, de pomba, para revelar as comunicações de vossa caridade.

Cobri-me com a sombra de vossa pro­teção, ensinai-me a maneira de vos lou­var incessantemente; dai-me costumes puros.

Emfim, sois o Autor de todos os dons celestes. Ah! eu vos suplico, vivificai-me com Vossa graça, santificae-me com vossa caridade, governai-me com vossa sabedoria, dotai-me como filho por vossa bon­dade e salvai-me pela vossa infinita mise­ricórdia, a fim de que não cesse nunca de vos abençoar, louvar e amar na terra, du­rante minha vida, em seguida no céu por toda eternidade. Amen.



PRIMEIRO DIA

Meditação

O Espirito-Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Vemos como uma graça singular que esta Pessoa di­vina se digna habitar em nós. E’ o Espi­rito-Santo mesmo que vem morar nos nossos corações, isto está escrito em cada pagina do Novo Testamento.

Si há uma cousa para admirar é que nós cristãos e catolicos que temos no coração a luz da Fé e nas mãos as san­tas escrituras, cheguemos algumas ve­zes á metade de nossa existencia e talvez ao fim de nossa vida sem mesmo nomear o Espirito-Santo, emquanto que falamos no Pae e no Filho.

E’ possível que ignoremos a presença intima do Espirito-Santo em nós?

Lastimavel ignorancia!

Não temos conciencia das operações continuas da graça, efeito da presença do Espirito-Santo em nossas almas.

Insensibilidade criminosa!

Si ha uma cousa para nossa vergonha, uma cousa que devia nos lançar de joe­lhos com o rosto em terra, é que, duran­te o correr do dia, nós vivemos como si não houvesse o Espirito-Santo; somos co­mo os Efesios, que quando o Apostolo lhes perguntava si eles tinham recebido o Espirito-Santo depois que abraçaram a fé, responderam: Nós nem sabiamos que havia Espirito-Santo. (Act. 19,2).

Nós vivemos no mundo e somos mun­danos; vivemos sobre a terra e as cousas da terra nos tornam terrestres; vivemos para o prazer, para o trafico, para o di­nheiro, para a leviandade, para a satis­fação de nossa vontade própria.

Si ha uma verdade preciosa a conhe­cer e doce a contemplar, uma verdade que ofereça interesse mais do que ordi­nário e contenha de alguma forma a me­dula do cristianismo, uma verdade frequentemente lembrada nos Santos Livros, e no entanto deixada quasi na sombra por quem tem o dever de pregar ao povo, é seguramente o dogma tão piedoso quan­to consolador da presença e da habitação do Espirito-Santo nas almas justas.

Eusebio conta de Leonidas, pae de Orígenes, que durante a noite, emquanto o seu filho dormia, o piedoso cristão, que logo seria martirisado, se aproximava de seu filho, e beijava-lhe com respeito o peito como um santuario do Espirito Santo.

RAMALHETE ESPIRITUAL

Não contristeis o Espirito-Santo. Não resistais ao Espirito-Santo. Não extingais o Espirito.

(Eph. 4,30 — Act. 7,51 — Thess. 5,19)

Exemplo — A ilustre Virgem de Syracusa acabava de distribuir com os pobres o rico dote que sua mãe tinha posto em reserva para o seu casamento.

Informado desta conduta e tomado de despeito, o jovem que tinha pedido a sua mão e ao qual Luzia tinha prometido con­tra a própria vontade casar-se, denunciou- a ao pretor Pascasio. Este mandou pren­der imediatamente a joven e quando ela compareceu diante do tribunal, nada lhe foi poupado para renunciar a religião cristã, tida por vã superstição, e para sa­crificar aos deuses.

“O verdadeiro sacrifício que nós deve­mos oferecer é visitar as viuvas e os orfãos, disse Luzia, é assistir aos pobres nas necessidades. Ha tres anos que eu ofereço este sacrifício ao Deus Vivo, e só resta sa­crificar a mim mesma como uma vitima que é devida á sua divina Majestade”.

—”Dizei isto aos cristãos e não a mim, respondeu Pascasio; eu sou obrigado a guardar os editos dos imperadores, meus senhores “.

Santa Luzia continuou; “Vós guardaes as leis destes príncipes e eu as de meu Deus; Vós temeis os imperadores da ter­ra, eu o do céu; Vós tendes receio de ofender um homem, e eu ao Rei Imortal; Vós desejais agradar a vossos senhores e eu ao meu Creador; não penseis poder-me separar do amor de Jesus-Christo.

“‘-—”Todos estes discursos acabarão, quando vierem os açoutes, retorquiu o pretor impacientado.

—”As palavras, atalhou a intrépida Virgem, não poderiam faltar àqueles a quem Jesus-Christo disse:

Quando vós fordes levados aos tribunaes não vos inquieteis sobre o que haveis de responder… o Espirito-Santo falará por vós”.

—”Vós acreditais que o Espirito-Santo está em Vós?

. —”Aqueles que vivem piedosamente e castamente são o templo do Espirito-San­to.

—”Pois bem, eu vos mandarei a um lu­gar infame afim de que o Espirito-Santo vos abandone”.

—”A violência feita ao corpo nada tira á pureza da alma; e, si vós me ultrajardes eu terei no céu uma dupla coroa”.

Deus salvou por um milagre a honra de sua esposa.

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito-Santo que me visiteis com vossa graça e vosso amor.

Nós Vos pedimos, Senhor, que o Espi­rito-Santo venha ém nossos corações e morando neles os torne templos dignos de sua gloria.

LADAINHA DO ESPIRITO-SANTO

Senhor, tende piedade de nós

Pae Eterno todo-poderoso, tende piedade

de nós

Jesus, Filho Eterno do Pae e Redentor do

mundo, tende piedade de nós, Espirito do Pae e do Filho, Amor eterno,

Santificae-nos, Santíssima Trindade, ouvi-nos. Espirito-Santo que procedeis do Pae e do

Filho, vinde a nós Divino Espirito, que sois igual ao Pae e ao Filho, vinde a nós,

Promessa do mais terno e generoso dos Pais, vinde a nós

Dom do Deus altíssimo Fogo Sagrado Caridade Ardente Unção espiritual das almas Espirito de Verdade Espirito de Sabedoria e de Inteligência Espirito de Conselho e de Força Espirito de Ciência e de Piedade Espirito de Temor de Deus Espirito de graça e de oração Espirito de compunção e de confiança Espirito de doçura e de humildade Espirito de paz e de paciência Espirito de modéstia e de pureza Espirito consolador Espirito Santificador

Espirito do Senhor que encheis o universo Espirito de Infalibilidade que dirigis a Igreja

Espirito de adoção dos filhos de Deus Espirito Santo ouvi-nos Iluminae nosso espirito com vossa luz Inflamae nossos corações com vosso calor Tornae-nos firmes e corajosos na fé . Conduzi-nos na via de vossos mandamen­tos

Fazei-nos dóceis a vossas inspirações Ensinae-nos a orar e orae conosco

Ensinae-nos a nos amar e nos suportar

mutuamente Revesti-nos de caridade e misericórdia

para com nossos irmãos Inspirae-nos horror ao mal Dirigi-nos na pratica do bem Concedei-nos o mérito das virtudes Fazei-nos perseverar na justiça Sêde nossa eterna recompensa Cordeiro de Deus, que tirais os pecados

do mundo, perdoaiinos Senhor Cordeiro de Deus, que tirais os pecados

do mundo, ouvi-nos Senhor Cordeiro de Deus, que tirais os pecados

do mundo, tende piedade de nós V — Vinde, Espirito-Santo e enchei os co­rações de vossos fieis. R — E acendei neles o fogo do vosso divi­no amor.

ORAÇÃO

Que vosso Divino Espirito nos esclare­ça, abraze e purifique, e nos refrigere com seu celestial orvalho, tornando-nos fecundos em bôas obras, por Nosso Se­nhor Jesus-Cristo, que sendo Deus, vive e reina comvosco na gloria, em união com o Espirito-Santo.

Amen.

SEQUENCIA

Vinde, oh! Santo Espirito, e mandae do céu um raio da Vossa luz.

Vinde, oh! Pai dos pobres, vinde oh! Distribuidor dos bens, vinde oh! Luz dos

corações.

Vinde oh! Consolador ótimo, doce hos­pede, e suave alegria das almas.

Vinde aliviar-lhes os trabalhos, tempe­rar-lhes os ardores, e enxugar-lhes as lagri­mas.

Oh! luz beatíssima, inflamae os íntimos corações dos vossos fieis.

Sem a Vossa graça nada há no homem nada inocente.

Lavae pois o que está sordido, regae o que é seco, sarae o que anda enfermo.

Abrandae o que é duro, abrazae o que é frio, e reconduzi o desviado.

Concedei aos vossos servos, que em vós confiam, o setenario de vossos dons.

Dae-lhes o mérito da virtude, o dom da graça final, e o glorioso prêmio dos pra­zeres eternos.

Amen..

Espirito Divino acende em mim a luz que faça o meu destino ser alcançar Jesus.


SEGUNDO DIA

Meditação

O Espirito-Santo é comparado a uma fonte de agua viva e também a um fogo ardente.

“O fons vivus, Ignis, Charitas!”

A agua é vida. Na natureza a agua cir­cula como o sangue nas nossas veias. Quer ela brote do seio da terra ou se ar­roje das montanhas em torrentes, ou cáia do céu em chuva, é a agua que fertiliza a terra.

Sem ela, a terra mais rica permanece esteril. Onde há agua a vida resurge, a semente germina, a seiva circula nas plantas.

A agua faz o oásis surgir no deserto!

A ação da agua na natureza nos faz comprehender a ação da graça nas almas.

A graça santificante, como a agua, pu­rifica, refresca e vivifica.

As almas santas são comparadas a “jardins fertilizados por aguas vivas”, a “arvores vicejantes plantadas na beira das aguas”.

A agua fertiliza a terra, mas é o sol que faz a seiva levantar, que dá á flor seu brilho e á fruta seu sabor.

Nas sagradas Escrituras, o homem jus­to é comparado á palmeira: “o justo florescerá como a palmeira”. A palmei­ra para florecer deve possuir aguâ e sol em abundancia, pois a estes dois elemen­tos deve a vegetação tropical a sua vida.

Assim, o fogo é também principio de vida. O fogo não somente vivifica mas purifica, ilumina e inflama.

E’ o simbolo do trabalho da graça nas nossas almas, nos tres graus de vida purgativa, iluminativa e unitiva.

0 fogo torna o ferro flexível e, ao mesmo tempo que torna inaleaveis os me­tais duros, dá ao giz que o artista mode­lou a consistência de pedra. Da mesma forma, o Espirito-Santo amolece os co­rações endurecidos pelo vicio e dá ás al­mas fracas a energia, e o vigor, como o fez com os Apostolos no Pentecostes,

O Espirito-Santo ilumina, vivifica, é luz para o coração: lumen cordium, e porisso é principio de união. A fé nos aproxima de Deus, o amor nos une a Ele.

“Eu vim para lançar fogo á terra”, dis­se Nosso Senhor, este fogo que é a cari­dade, o amor.

A Nicodemos, Jesus declara que: “Si o homem não renascer da água e do Es­pirito Santo, não entrará no reino de Deus” (João III 5) e João Batista pre­gou que o Messias batisaria “no Espirito- Santo e no fogo”.

Vêde! Agua, fogo, e sempre o Espiri­to-Santo.

Este batismo de fogo, receberam-no os Apostolos 110 dia de Pentecostes, quan­do o Espirito-Santo desceu sobre eles em linguas de fogo.

RAMALHETE ESPIRITUAL

A alma não está tão unida ao nosso cor­po como o Espirito divino está com a nossa alma.

EXEMPLO

O Espirito-Santo distribue seus dons conforme lhe apraz, a uns dá o dom das linguas, a outros o das profecias, das reve­lações e dos milagres.

Santo Antonio de Padua pregou em Ro­ma e todos os homens o entenderam, em­bora sendo de nacionalidades diferentes.

—De São Francisco Xavier, Apóstolo da índia e do Japão, referem os processos de canonização que falou as linguas de vários povos tão corretamente, como si tivera nascido e sido educado no meio deles. E, sucedeu muitas vezes que, ouvindo-o pre­gar, homens de diversas nações, ao mesmo tempo, cada um deles o entendia, como si lhes falasse na sua própria lingua.

—O nosso veneravel Padre Anchieta, Apóstolo do Brasil, fazia milagres com tanta frequencia, que o chamavam: o Taumaturgo. O seu dom de milagres ma­nifestou-se especialmente no domínio que exerceu sobre os elementos e sobre os ani- maes.

Um dia, achava-se o Padre Anchieta á beira-mar, em profunda meditação, por tal modo que subindo a maré e sem ele o notar nem mover-se, viu-se num momen­to rodeado das ondas; porém estas nem siquer humedeceram os seus vestidos.

-—Noutra ocasião, navegando o Padre Anchieta numa barca, com o mar em calma e um calor forte que sufocava os marinheiros, viu na margem de um man­gue tres ou quatro guarás, e lhes disse em lingua indigena: “Ide, chamae vossos companheiros, e vinde fazer-nos som­bra”. Foram, e em breve voltaram em uma formosa nuvem que se poz sobre a canoa por espaço de uma légua, até que entrando a viração, pois elas batiam as azas como que abanando com um leque, transmitiu ar fresco aos marinheiros, maravilhados de tão amigavel e inespe­rado obséquio.

Este caso foi jurado pelo companhei­ro Pe. Pedro Leitão diante do P. Fernão Cardim, Provincial e diante de outras pessoas.

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito-Santo, que me visiteis com vossa graça e vosso amor.

Permiti, Senhor, que a infusão do di­vino Espirito purifique os nossos cora­ções e os faça fecundos com a intima aspersão da sua graça .

Amen.

Vinde, Luz de caridade Inflamar os corações A todos nós, por piedade, Defendei nas tentações.


TERCEIRO DIA

Meditação

O orgulho é o grande obstáculo á nos­sa perfeição. É o orgulho que nos leva a resistir a Deus, a nos perder.

Quem nos salvará de tão grande peri­go? Quem nos dará a humildade?

O Espirito Santo, infundindo em nós o dom de temor.

O dom de temor nos dá o profundo sentimento da grandeza e da soberana Majestade de Deus, em cuja presença •somos como o nada.

Praticamente, nos mostra em Deus o Mestre onipotente, o Legislador.

Um dos erros do modernismo é alte­rar as verdades da religião; o livre pen­sador glorifica o pecado e nós o julgamos com menos severidade, exalta as paixões e nós as desculpamos, nega o inferno e nós o imaginamos menos terrível do que é. Assim, o salutar temor do juizo de Deus morre nas almas.

Temer a Deus não significa ter medo d’Ele. Este temor de Deus, dom do Es­pirito Santo, nos torna apreensivos em ofender a nosso Pae celeste, em contristá-lo nas minimas cousas: Temor que au­menta á medida que aumenta o amor.

O Espirito Santo nos faz conceber quão grande é este Deus que a Fé revela e nos leva a nos inclinar diante de sua Majes­tade: é a Adoração.

Penetra e excita no coração um sen­timento de segurança, de abandono nas mãos de um Deus onipotente: é a Con­fiança .

Influe sobre a vontade e a move a ser­vir sempre um Mestre tão perfeito: é a fidelidade.

Desce ao intimo da consciencia inspi­rando o sentimento de compunção, tor­nando-a delicada, receiosa em ofender a Deus.

E’ neste harmonioso conjunto de res­peito, confiança, fidelidade e compunção que consiste o dom de temor.

Os frutos do dom de temor são a mo­déstia, a temperança e a castidade.

RAMALHETE ESPIRITUAL

“Bemaventurados os pobres de espirito porque deles é o reino dos céus”.

Esta bemaventurança corresponde ao dom da piedade.

EXEMPLO

0 imperador Juliano, vinte anos de­pois de ter recebido o batismo e a confir­mação, renunciou á fé e tornou-se impio.

Convencido de que estes dous sacra­mentos haviam impresso em sua alma caracteres indeleveis e eternos, e queren­do por força se livrar desses dous carac­teres espirituaes, que sem cessar lhe cen­suravam a apostasia, recorreu a todos os meios possíveis, sem pensar que esses mesmos esforços eram uma testemunha eloqüente a favor desta religião que ele combatia com tanto furor e tenacidade.

A historia relata que ele fazia correr sobre sua pessoa o sangue das vitimas imoladas nos altares dos falsos deuses, e recorria ás praticas supersticiosas, afim de destruir em sua alma a impressão, o sinal sagrado de cristão e confirmado.

Ai dele! o desgraçado só fazia irritar a cólera divina e agravar sua culpa.

A despeito de seus esforços sacrilegos, quando a trombeta do anjo chamar os ho­mens ao juizo final, será na qualidade de cristão confirmado que ele sahirá do se- pulcro e virá dar contas do abuso das graças que lhe, deram os sacramentos.

ORAÇÃO

Peço-vos oh! divino Espirito-Santo, que me visiteis com vossa graça e .vosso amor, e me concedais o dom do Temor, para me servir de freio afim de não recair nas faltas passadas, das quaes eu vos peço perdão.

LADAINHA SEQUENCIA

Temor de Deus vos suplicamos, Sempre nos vinde dominar. Todos os dons, solicitamos, Vinde em nossa alma derramar.

QUARTO DIA

Meditação

O dom do Temor nos cura do orgulho. – O dom da Piedade é derramado em nossas almas para combater o egoísmo, segundo obstáculo á nossa união com Deus.

Este dom da Piedade nos mostra Deus como um Pae muito bom e suscita em nossas almas um desejo ardente de lhe agradar. Faz-nos doces e confiantes para com este Pai celeste, quando pre­cisamos pedir-lhe um favor ou confessar- lhe uma falta.

Entretém em nossos corações relações de amor para com a Santíssima Virgem a quem consideramos uma Mãe ternissima e poderosa medianeira, para com os Anjos e Santos que temos como prote­tores e advogados.

Infunde em nós o amor a todos os ho­mens, sobretudo aos pobres e humildes.

Ha uma falsa piedade que é uma cari­catura da verdadeira; é superficial, es­treita, falha de sentimentos generosos e de idéias elevadas, escrava de formulas e palavras; piedade farisaica que se interes­sa mais com os objetos da piedade do que com a Virtude, que pratica os conselhos e negligencia os preceitos, se ocupa de tra­balhos supérfluos e esquece os impostos pelos dever, piedade de rotina, suspeita, sentimental, perdida num vago misticis­mo, que se acomoda a tudo, meia munda­na, meia cristã.

A piedade será para nós questão de tem­peramento? Naturezas impressionáveis fa­zem consistir a piedade em sentimentalismo; naturezas ardentes no zelo exterior; a piedade dos fracos se limita a não ofender os outros.

Será lógica a nossa piedade?

Teremos em nós uma mistura de de­voção e dissipação, misticismo em nos­sas idéias e trivial idade em nossa vida, sentimentalidade espiritual e grande cobardia em face do dever?

Há inúmeras almas piedosas, como as multidões da galiléa.

Elas se comprimiam em volta de Nos­so Senhor, mas, de todas, só uma mu­lher pobre e humilde tocou o Senhor com fé e confiança.

“Quem me tocou?” perguntou Jesus. Respondeu S. Pedro; “Senhor, ás multi­dões vos cercam e Vós dizeis quem me tocou?” e Jesus disse —”Alguém me tocou, porque uma virtude emanou de mim”.

Como os raios do sol o dom da pieda­de é luz, calor e vida, e se compõe de fé, amor, e força; vai a Deus sem cons­trangimento; é o sentimento religioso em toda a sua delicadeza. E’ menos um ato de obediencia imposto ao servo que uma prova de ternura em que se com­praz o filho.

Os frutos que produz a piedade são: a alegria espiritual e as doçuras da carida­de.’

RAMALHETE ESPIRITUAL

Bemaventurados os mansos porque possuirão a terra”.

EXEMPLO (extraído da vida de Guy de Fontgalland).

A piedade do pequeno Guy de Fongalland não é uma manifestação exterior, ritos, formulas: é a sua própria alma. .

E’ extraordinaria a intimidade a que chegára Guy com seu “menino Jesus”.

Sua professora, acompanhando-o á missa tinha-lhe pedido que rezasse por uma de suas intenções. Assim fez Guy, e logo depois da Elevação voltando-se para ela, disse-lhe: “Mademoiselle, está feito, já rezei para o que a Sra. me pe- dio”.

Como há sempre pessoas que tenham da piedade uma idéa medíocre, a profes­sora não deixou de fazer observar ao pe­queno que ele devia se ter abstido de fa­lar depois da Consagração:

—Mas, sim! diz Guy, quando todos a- baixam a cabeça eu a levanto, olho para Deus bem em frente e digo o que tenho a dizer-lhe: é o meu momento!

Que força no caracter! que retidão más­cula e leal na piedade.

É o meu momento, diz Guy. . .

Bemdigamos a minúcia um tanto mes­quinha da excelente professora.

Ela vai nos mimosear com uma res­posta ainda mais bela.

—Mas, durante a ação de graças, quan­do Jesus está no seu coração?

—Oh! responde Guy sorrindo, ahi não é a mesma cousa, Jesus me fala, eu o escuto e o saboreio!”

A propósito desta resposta, disse um padre franciscano, da mais brilhante in­teligência, que, na sua opinião, semelhan­te frase indica um estado mystico muito elevado.

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito-Santo, que me visiteis com Vossa graça e Vos­so amor e me concedais o dom da Pieda­de, afim de que eu possa vos servir com mais fervor, seguindo com docilidade vossas santas inspirações, observando vossos divinos preceitos. ..

LADAINHA SEQUENCIA

Divina Luz da Piedade Nos inflamando o coração Com o Santo ardor da caridade Nos purifique a imperfeição.

QUINTO DIA

Meditação

— 0 dom da Ciência ensi­na aos homens as verdades da fé, a prati­ca das virtudes cristãs, dando-lhes o ver­dadeiro conhecimento de seus deveres.

Retifica e amadurece nosso raciocínio e nos torna capazes de discernir o bem do mal.

A fé é a luz de nossas almas.

Pelo dom da Ciência, o Espirito-Santo faz brilhar esta virtude de maneira a dis­sipar nossas trevas; esclarece as duvidas e expele o erro.

A alma iluminada fica ciente do pouco

valor deste mundo, este mundo variavel e traidor, que promete mais do que dá.

0 dom de Ciência nos ensina a vêr Deus nas suas obras, a lêr no grande livro da natureza o poema escrito por Deus, porque toda creatura é uma palavra des­te poema divino, uma especie de sacra­mento, um sinal visivel que contém um fragmento da idéa de Deus.

Os santos descobrem nas criaturas tu­do o que elas revelam de Deus, de seu poder, sabedoria, e bondade, porque as obras de arte proclamam bem alto o seu autor. Na harmonia do universo perce­bemos os traços do Creador. a marca de seus passos, a impressão de sua mão, o éco de sua palavra, o reflexo de seu pen­samento, a radiação de seu amor.

O dom de Ciência também aumenta o poder intelectual dos sábios, e ilumina os gênios. Nos iletrados dá e esclarece o bom senso, mais valioso que o arrogante conhecimento dos sábios.

A Ciência — o sentido do sobrenatural é para a alma o que a luz do sol é para os olhos, o que o conhecimento humano é para a mente. Aqueles que não possuem este dom são como os cegos que têm meios limitados de percepção: um senti­do falta a eles, e um aspeto do mundo lhes escapa.

O fruto deste dom é uma fé esclareci­da que nos ajUvia a usar das criaturas sem os lastimaveis desvios.

RAMALHETE ESPIRITUAL

Bemaventurados os que choram, por­que serão consolados.

EXEMPLO

Santa Verônica de Milão, morta em 1494, era uma humilde camponeza, que não havia recebido instrução humana e nem sabia siquer lêr. A graça do Espiri­to-Santo recebida no crisma foi seu úni­co professor e lhe revelou os segredos do reino dos céus. As luzes interiores do di­vino Espirito a faziam meditar sem ces­sar nos mistérios e nas verdades principaes da fé. Tornando-se religiosa, dese­jou lêr as Sagradas Escrituras, e para is­to, passava as noites aprendendo a lêr, sósinha; conseguio-o finalmente, tendo que vencer dificuldades incríveis.

Um dia, num momento de piedoso abandono, queixou-se a Deus da lentidão de seus progressos.

O Espirito-Santo a consolou numa vi­são: “Não te inquietes, lhe disse, basta conlieceres três cousas — primeiro: a pu­reza de coração, que consiste em amar a Deus acima de tudo, e em amar as criatu­ras para Ele; segundo: não murmurar nunca e suportar com paciência os de­feitos do proximo; terceiro; ter cada dia um tempo marcado para meditar sobre a Paixão de Jesus-Cristo.

Fiel ás lições do Espirito de Deus, San­ta Verônica avançou rapidamente no ca­minho da perfeição.

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito-Santo, que me visiteis com vossa graça e vosso amor e me concedais o dom da Ciência, afim de que eu possa conhecer bem as cousas de Deus e, esclarecido por Vossas santas instruções, andar sem me desviar do caminho de minha salvação.

LADAINHA SEQUENCIA

Dai-nos Ciência que nos guie A Jesus, oh! Mestre Senhor, Nossa razão jamais se alie Aos erros mil do sedutor.


SEXTO DIA

Meditação

O dom da Fortaleza comunica á alma- uma coragem sobrenatural, uma energia divina, que a torna capaz de enfrentar as dificuldades, os sofrimentos, as tentações, os perigos, as tristezas e as provações de que é cheia a vida do homem nesta terra.

O dom da Fortaleza nos torna capazes de empreender e de agir. E’ um movi­mento sobrenatural que dá á alma um especial controle sobre os sentidos e a na­tureza, é a tenacidade 110 bem.

E’ o dom que faz as grandes almas, os corações nobres e os caracteres heroicos.

Agir e sofrer: eis a vida.

Agir para Deus é a fonte da vida sobre­natural, sofrer pelo amor de Deus é o segredo da perfeição.

E’ o dom da Fortaleza que sustenta a alma contra os assaltos do inimigo infer­nal, contra o espirito do mundo que me­nospreza a virtude e rejeita a pobreza, a castidade e a humildade.

Todas as maravilhas de coragem, cons­tância, abnegação, penitencia, e resigna­ção são devidas ao dom da Fortaleza. Si multidões de almas de sua livre vontade procuraram a cruz e carregando-a não a acharam demasiado pesada, devem isto ao dom da Fortaleza; porque todo nosso ser se revolta contra o sofrimento. Para suportá-lo é preciso uma energia de von­tade, um império sobre si mesmo que não estão na nossa natureza e que só a graça pode dar.

Está em contradição com o dom da Fortaleza o respeito humano, unido a uma certa cobardia que se intimida dian­te do juizo mundano.

Seus frutos são: a longanimidade, que não se cansa de praticar o bem, a paciência que suporta todas as provações, e a ale­gria que é a primeira recompensa dada pe­lo Espirito-Santo a quem pode dizer como São Paulo “Combati o bom combate”.

RAMALHETE ESPIRITUAL

“Bemaventurados os que têm fome e sê- de da justiça porque serão fartos”.

EXEMPLO

Na ultima perseguição do Japão, um japonez dizia á sua mulher, na presença de seu filhinho de dez anos: “Pobre criança!

E’ muito pequeno para confessar sua fé e ser martirizado! Tornar-se-á pagão!”

Ouvindo isto, a criança foi buscar um ferro em braza e passou-o na mãozinha. A mãe lh’o arrancou com grandes exclama­ções.

—”Como veem, respondeu a criança, posso também vos acompanhar no mar­tírio .

Eis as maravilhas que o Espirito-San­to opera numa alma de criança!

—Lê-se nos anaes da ultima persegui­ção do México um fato comovedor.

Os perseguidores tinham em seu poder um menino piedoso -a quem, á força de maltratos, queriam fazer confessar onde estavam escondidos o bispo e os padres mexicanos. Porem o pequeno permane­cia calado. Tinham-no pendurado, pre­so apenas pelos dous polegares.

Num momento dado, o pequeno martyr declarou ter uma cousa a dizer. Os malvados algozes sorriam com ar de tri­unfo, pensando tê-lo vencido.

Quando o desprenderam, ele deixou ca- hir sacudindo-as, as duas falanginas par­tidas pela corda que segurava o corpo e então apresentou-lhes os dous indicado­res para ser suspenso novamente.

Furiosos, os algozes o ligaram sem pie­dade, e, com um tiro certeiro no coração, transplantaram esta florsinha para sua verdadeira patria: o céu.

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito-jSanto, que me visiteis, com vossa graça e vos­so amor, e me concedais o dom da For­ça, afim de que eu possa vencer os ata­ques do demonio e todos os perigos que no mundo se opoem á salvação de minha alma.

LADAINHA SEQUENCIA

Na tentação cruel, terrível, Ah! sustentai o nosso ardor E que por Vós, Força invencível, Sempre lutemos com valor.


SÉTIMO DIA

Meditaçao

O dom de Conselho produz na ordem sobrenatural o que a prudência faz na ordem natural.

Ensina a julgar os homens e as cousas com o espirito cristão e mostra-nos a ma­neira de tratar santamente a todos. Dirige cada um em particular com uma discreção em que se unem a força e a suavida­de fazendo-o falar ou calar, agir ou espe­rar, segundo os tempos, os lugares e as circunstancias.

O dom do Conselho leva a distinguir en­tre duas cousas boas e justas qual é a me­lhor, a mais elevada, a mais agradavel a Deus.

Ao barco duvidoso no mar revolto, é necessário um piloto esclarecido que co­nheça a rota segura, por entre rochedos e abrolhos.

Assim, a alma iluminada com o dom de Conselho discerne os meios e vê clara­mente o seu caminho, para o seguir com confiança, seja árduo embora, esteril ou repugnante.

Não receia o zelo indiscreto que empre­

ende mais do que pode realizar, ficando assim salva da agitação e da inconstância.

Os mandamentos e os preceitos do Evan- gelho marcam a fronteira de nossas obrigações morais, e nos traçam a vereda ordinaria da salvação. Mas, si os Man­damentos bastam para nos livrar da perdição, não nos libertam suficiente­mente das perplexidades e preocupações da vida. Uma regra mais estrita é exigi­da: é a dos conselhos evangelicos. Não é obrigatoria. Si é apontada para to­dos, só para alguns é especialmente pro­posta.

Há no Evangelho paginas de miste­riosa significação que só penetram aque­les que têm o dom de conselho.

E’ o tesoiro escondido do Evangelho.

Os frutos deste dom são: a docilidade e a obediencia em seguir em todas as oca­siões os conselhos do Espirito-Santo.

RAMALHETE ESPIRITUAL

Bemaventurados os misericordiosos por­que alcançarão misericórdia.

EXEMPLO

Nada deve se colocar como obstáculo entre nós e o serviço de Deus. Si Ele nos chama ao completo sacrifício, este sacri­fício deve ser feito.

—São Caetano ocupava em Roma uma posição honravel e lucrativa.

A atmosfera da corte pontificai, com seus esplendores permitidos, lhe pareceu perigosa; renunciou a tudo, fez-se padre e passou toda sua vida em obras de ca­ridade, para a salvação das almas.

—St.0 Afonso, quando advogado, se afastou um dia, ligeiramente, da verda­de; sua consciência ficou de tal forma a- larmada, que ele renunciou imediatamen­te a esta profissão, onde estavam todas as esperanças do seu futuro.

-—St.a Rosa era bela, e sua pessoa atraia a atenção. Ela cortou os cabelos, com o receio de se expôr á tentação, e por sua humildade, e modéstia, encontrou facili­dade em proseguir no caminho da santi­dade .

—São Carlos Borromeu vendeu todo seu patrimonio e em um só dia distribuiu com os pobres o dinheiro.

Não houve pastor na Igreja que traba­lhasse tão energicamente, e que tomasse tão pouco repouso como São Carlos.

Não houve jamais quem fosse tão de­dicado para ganhar as almas, não reser­vando para si um instante, como ele.

Sempre rodeado de homens, cheio de negocios, ocupado do clero, da arquidio­cese, dos necessitados.

A prece se aliava á sua ação.

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito-Santo, que me visiteis com vossa graça e vosso amor, e me concedais o dom de Conselho, afim de que eu possa escolher o que é mais con­veniente á minha santificação, e descobrir as ciladas do espirito maligno.

LADAINHA SEQUENCIA

Vinde nos dar Vosso Conselho Que nos ensine a sempre ver Em Jesus-Christo, nosso espelho, 0 que devemos resolver.

OITAVO DIA

Meditação

O dom da Inteligência nos dá a perce­pção clara, o sentido intimo das verdades divinas.

Consiste numa iluminação que nos tor­na capazes de penetrar profundamente as verdades sobrenaturais, não de um modo obscuro, mas, por uma especie de intui­ção que vê como transparentes as pala­vras e os symbolos.

A alma contempla o objeto de sua fé, como si possuísse um novo sentido, e com olhos que se abriram para a luz de um mundo mais elevado.

“Intellectus” vem de “intus legere” que significa penetrar o espirito da letra.

A alma dotada da inteligência se sente dilatada por esta clareza, esta luz, que lhe aumenta a fé, a esperança e a caridade.

Sente-se impressionada de um modo no­vo pela leitura do santo Evangelho, acha um sentido desconhecido nas palavras do Salvador, comprehende melhor o fim dos Sacramentos, sente-se comovida pelos ritos profundos da liturgia, e atraida pela vida dos Santos, que lhe causa grande edificação.

O dom da Inteligência, assim como o da sabedoria, completa a obra da perfeição, e nos conduz á contemplação.

Esta atração para a vida contemplati­va não depende das condições materiaes da existencia, e não é o privilegio das al­mas enclausuradas. Encontra-se ás vezes numa operaria, numa camponeza, numa mãe de família, pois, a graça da contemplação não é fruto da ciência mas antes da humildade de espirito, e da pureza de co­ração .

O fruto do dom da Inteligência é uma fé luminosa.

RAMALHETE ESPIRITUAL

Bemaventurados os limpos de coração porque verão a Deus.

EXEMPLO

Escreve um missionário da China:

Numa missão, encontrei uma menina- sinha de dez anos, muito bem instruída da religião, o que nesta idade é muito raro entre os chinezes. Esta criança desejava ardentemente se crismar, eu hesitava, no entanto, achando-a jovem demais. Que­rendo me certificar si sua coragem egualava sua inteligência, disse-lhe: “Depois que estiveres crismada,que farias si o man­dariam te puzesse na prisão, te interrogas­se sobre a doutrina? que responderias?

—Responderia: sou cristã pela graça de Deus.

—E si ele te mandasse renunciar ao Evangelho, que farias?

-—Responderia: Nunca.

—Si ele chamasse o carrasco e te dissesse: Apostasia, ou terás a cabeça cortada, qual seria tua resposta?

—Eu lhe diria: Corta!

Encantado de vê-la tão bem disposta e resoluta, não hesitei em administrar-lhe o sacramento da Confirmação.

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito-Santo, que me visiteis com vossa graça e vosso amor e me concedais o dom da Inteligência a- fim de que eu possa entender os misté­rios divinos, e pela contemplação das cousas celestes desapegar meus pensamentos e afetos de todas as vaidades deste mun­do miserável.

LADAINHA SEQUENCIA

Divina luz de Inteligência A nossa mente esclarecei E com fervor e diligencia Nós seguiremos vossa lei.

NONO DIA

Meditação

O dom da Inteligência nos conduz á Sa­bedoria, assim como o conhecimento é o primeiro passo para o amor.

Conhecendo a excelencia de uma cousa, desejámo-la.

O Espirito-Santo é luz e calor, é amor e Verdade ao mesmo tempo.

O dom da Sabedoria é ligado ao da In­teligência, emquanto ao objeto que numa é mostrado, e na outra é possuído.

O dom da Sabedoria é bem interpreta­do pela etymologia da palavra sapiência: “sapere”, saber bem, sentir o gosto, provar as cousas divinas, estimar o valor das cou­sas pelo sabor.

O dom da Sabedoria consiste na expe- riencia do coração que possue o dom di­vino, e se compraz na sua posse. Com e- feito, a sabedoria é o amor puro, é santi­dade, é a ultima palavra da perfeição, re­sumidas neste grito do Salmista “Oh! provae e vede como o Senhor é suave”.

O dom da Sabedoria está em nossos co­rações, possuindo nós a graça santificante, e cresce, á medida que formos fieis e dó­ceis ás inspirações divinas.

Os que têm mais facilidade de adquirir o dom da Sabedoria são os pobres, cuja condição engendra a simplicidade, ames- quinha e aniquila o orgulho que é o grande obstaculo á nossa união com Deus.

Depois dos pobres, são as crianças ba- tisadas, pois as suas almas ainda não fo­ram manchadas, nem seus corações obs- curecidos pelo pecado.

Quando a Sabedoria increada, o Filho de Deus, veio a este mundo, ela tocou em muitas cousas com suas mãos divinas: os doentes, os aflitos, os famintos, os mori­bundos, as crianças; o pão que benzeu e dividiu no deserto; a dor e o sofrimento; emfim as abraçou na Cruz. Jesus deixou em tudo o que tocou um perfume, uma doçura, que só percebem aqueles que possuem o dom da Sabedoria.

A Sabedoria é o ante-gosto da nossa fe­licidade eterna, é a suprema perfeição da alma em sua união com Deus.

O fruto deste dom é uma estima sin­gular da sabedoria divina.

RAMALHETE ESPIRITUAL

Bemaventurados os pacificos porque se­rão chamados filhos de Deus.

EXEMPLO

Santo Antão, abade, cujas austeridades extraordinarias a todos causavam espanto e admiração, tinha um aspeto singular­mente alegre, de maneira que os estrannhos que visitavam a solidão em que vi­via reconheciam-no á primeira vista pelo seu rosto sereno, onde brilhava o mais pu­ro gozo, e distinguiam-no entre todos os monges.

Isto parece incompreensível ao munda­no, que pensam que uma vida mortificada é penitente é incompatível com uma verdadeira alegria e gozo do Espirito-Santo; vê os espinhos da abnegação, mas não as suas rosas; experimenta a amargura dos padecimentos, mas não saboreia a sua doçura; olha para a cruz, mas não vê a unção que o Espirito de paz nela infunde.

0 servo de Deus, Contardo Ferrini, ilus­tre professor de direito romano, que na cátedra da universidade italiana, fez res­plandecer ao mesmo tempo a ciência, a nobreza da fé, e a pureza dos costumes, costumava dizer: —”Eu não posso conce­ber uma vida sem oração, um despertar matutino sem o sorriso de Deus, um re­pouso noturno sem que seja sobre o pei­to de Cristo”.

Cada manhã recitava suas orações e fazia sua meditação; cada manhã ia á igreja para a “festa dos santos pensamen­tos”, como dizia. Depois de longas via­gens, mal descia do trem, procurava uma igreja para assistir ao santo sacrifício da Missa e unir-se a Jesus na comunhão.

E era um leigo e, mais ainda, professar de universidade. ..

ORAÇÃO

Peço-vos, oh! divino Espirito Santo que me visiteis com vossa graça e vosso amor, e me concedais o dom da Sabedoria, afim

de que eu possa dirigir minhas ações a Deus, e o possua eternamente no ceu, de­pois de o ter amado e servido nesta terra

Amen.

LADAINHA SEQUENCIA

Vinde nos dar Sabedoria Que nos dispensa a salvação 0 nosso empenho noite e dia Seja alcançar a perfeição.

Entrevista do Papa Francisco à revista ‘La Civiltà Cattolica’ - 20/09/2013

Quem é Jorge Mario Bergoglio?
Não sei qual possa ser a definição mais correta… Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, uma figura de linguagem. Sou um pecador.
Posso talvez dizer que sou um pouco astuto, sei mover-me, mas é verdade que sou também um pouco ingênuo. Sim, mas a síntese melhor, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, é exatamente esta: Sou um pecador para quem o Senhor olhou. Sou alguém que é olhado pelo Senhor. A minha divisa, Miserando atque eligendo, senti-a sempre como muito verdadeira para mim. O gerúndio latino miserando me parece intraduzível, seja em italiano, seja em espanhol. Gosto de traduzi-lo com um outro gerúndio que não existe: misericordiando.
Eu não conheço Roma. Conheço poucas coisas. Entre estas, Santa Maria Maior: ia sempre lá. Conheço Santa Maria Maior, São Pedro… mas vindo a Roma sempre vivi na Via della Scrofa. Dali visitava frequentemente a igreja de São Luís dos Franceses e ali ia contemplar o quadro da vocação de São Mateus, de Caravaggio.
Aquele dedo de Jesus assim… dirigido a Mateus. Assim sou eu. Assim me sinto. Como Mateus. É o gesto de Mateus que me toca: agarra-se ao seu dinheiro, como que dizendo: Não, não eu! Não, este dinheiro é meu!. Este sou eu: um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar. E isto é aquilo que disse quando me perguntaram se aceitava a minha eleição para Pontífice. Peccator sum, sed super misericordia et infinita patientia Domini nostri Jesu Christi, confusus et in spiritu penitentiae, accepto. (Sou pecador, mas confiado na misericórdia e paciência infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo, confundido e em espírito de penitência, aceito).
O por quê de ter virado jesuíta
Eu queria algo mais. Mas não sabia o quê. Tinha entrado no seminário. Gostava dos dominicanos e tinha amigos dominicanos. Mas depois escolhi a Companhia, que conhecia bem, porque o seminário estava entregue aos jesuítas. Da Companhia impressionaram-me três coisas: o espírito missionário, a comunidade e a disciplina. Isto é curioso, porque eu sou um indisciplinado nato, nato, nato. Mas a sua disciplina, o modo de organizar o tempo, impressionaram-me muito.
E depois uma coisa para mim verdadeiramente fundamental é a comunidade. Procurava sempre uma comunidade. Eu não me via padre sozinho: preciso de uma comunidade. É mesmo isso que explica o fato de eu estar aqui em Santa Marta: quando fui eleito, ocupava, por sorteio, o quarto 207. Este onde estamos agora era um quarto de hóspedes. Escolhi ficar aqui, no quarto 201, porque quando tomei posse do apartamento pontifício, dentro de mim senti claramente um 'não'. O apartamento pontifício no Palácio Apostólico não é luxuoso. É antigo, arranjado com bom gosto e grande, não luxuoso. Mas acaba por ser como um funil ao contrário. É grande e espaçoso, mas a entrada é verdadeiramente estreita. Entra-se a conta-gotas e eu não, sem gente, não posso viver. Preciso de viver a minha vida junto dos outros.
O que significa para um jesuíta ser Papa?
O discernimento. O discernimento é uma das coisas que Santo Inácio mais trabalhou interiormente. Para ele, é um instrumento de luta para conhecer melhor o Senhor e seguí-lo mais de perto. Impressionou-me sempre uma máxima com que se descreve a visão de Inácio: Não estar constrangido pelo máximo, e no entanto, estar inteiramente contido no mínimo, isso é divino (Non coerceri a maximo, sed contineri a minimo divinum est). Refleti muito sobre esta frase a propósito do governo, de ser superior: não estarmos restringidos pelo espaço maior, mas por sermos capazes de estar no espaço mais restrito. Esta virtude do grande e do pequeno é a magnanimidade, que da posição em que estamos nos faz olhar sempre o horizonte. É fazer as coisas pequenas de cada dia com o coração grande e aberto a Deus e aos outros. É valorizar as coisas pequenas no interior de grandes horizontes, os do Reino de Deus.
Esta máxima oferece os parâmetros para assumir uma posição correta para o discernimento, para escutar as coisas de Deus a partir do seu “ponto de vista”. Para Santo Inácio, os grandes princípios devem ser encarnados nas circunstâncias de lugar, de tempo e de pessoas. A seu modo, João XXIII colocou-se nesta posição de governo quando repetiu a máxima Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere (ver tudo, não dar importância a muito, corrigir pouco) porque mesmo vendo a dimensão máxima, preferia agir sobre pouca, sobre uma dimensão mínima. Podem ter-se grandes projetos e realizá-los, agindo sobre poucas pequenas coisas. Ou podem usar-se meios fracos que se revelam mais eficazes do que os fortes, como diz São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios.
Este discernimento requer tempo. Muitos, por exemplo, pensam que as mudanças e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que será sempre necessário tempo para lançar as bases de uma mudança verdadeira e eficaz. E este é o tempo do discernimento. E por vezes o discernimento, por seu lado, estimula a fazer depressa aquilo que inicialmente se pensava fazer depois. E foi isto o que também me aconteceu nestes meses. E o discernimento realiza-se sempre na presença do Senhor, vendo os sinais, escutando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente dos pobres. As minhas escolhas, mesmo aquelas ligadas à vida cotidiana, como usar um carro modesto, estão ligadas a um discernimento espiritual que responde a uma exigência que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos. O discernimento no Senhor me guia no meu modo de governar.
Pelo contrário, desconfio das decisões tomadas de modo repentino. Desconfio sempre da primeira decisão, isto é, da primeira coisa que me vem à cabeça fazer, se tenho de tomar uma decisão. Em geral, é a decisão errada. Tenho de esperar, avaliar interiormente, tomando o tempo necessário. A sabedoria do discernimento resgata a necessária ambiguidade da vida e faz encontrar os meios mais oportunos, que nem sempre se identificam com aquilo que parece grande ou forte.
A Companhia de Jesus
A Companhia é uma instituição em tensão, sempre radicalmente em tensão. O jesuíta é um descentrado de si próprio. A Companhia é descentrada de si mesma: o seu centro é Cristo e a sua Igreja. Por isso: se a Companhia coloca Cristo e a Igreja no centro, tem dois pontos fundamentais de referência do seu equilíbrio para viver na periferia. Se, pelo contrário, olha demasiado para si própria, se se coloca a si mesma no centro como estrutura bem sólida, muito bem 'armada', então corre o perigo de sentir-se segura e auto-suficiente. A Companhia deve ter sempre diante de si o Deus sempre maior, a procura da glória de Deus sempre maior, a Igreja Verdadeira Esposa de Cristo Nosso Senhor, Cristo Rei que nos conquista e a Quem oferecemos toda a nossa pessoa e todo o nosso esforço, mesmo se somos vasos de barro, inadequados. Esta tensão leva-nos constantemente para fora de nós mesmos. O instrumento que torna verdadeiramente forte a Companhia (de Jesus) descentrada de si mesma é o da “conta de consciência”, que é simultaneamente paternal e fraternal, precisamente porque a ajuda a sair melhor em missão.
Mas é difícil falar da Companhia. Quando se explicita demasiado, corremos o risco de nos enganar. A Companhia só pode exprimir-se em forma narrativa. Somente na narração se pode fazer discernimento, não na explicação filosófica ou teológica, onde, pelo contrário, se pode discutir. O estilo da Companhia não é o da discussão, mas o do discernimento, que obviamente pressupõe a discussão no processo. A aura mística não define nunca os seus limites, não completa o pensamento. O jesuíta deve ser uma pessoa de pensamento incompleto, de pensamento aberto. Houve épocas na Companhia nas quais se viveu um pensamento fechado, rígido, mais instrutivo-ascético do que místico: esta deformação gerou o Epitome Instituti.
Não, o jesuíta pensa sempre, continuamente, olhando o horizonte para onde deve ir, tendo Cristo no centro. Esta é a sua verdadeira força. E isto estimula a Companhia a estar à procura, a ser criativa, generosa. Portanto, hoje mais do que nunca, deve ser contemplativa na ação; deve viver uma proximidade profunda a toda a Igreja, entendida como 'Povo de Deus' e 'Santa Madre Igreja hierárquica'. Isto requer muita humildade, sacrifício, coragem, especialmente quando se vivem incompreensões ou se é alvo de equívocos e calúnias, mas é a atitude mais fecunda. Pensemos nas tensões do passado sobre os ritos chineses, sobre os ritos malabares, nas reduções no Paraguai.
Eu mesmo sou testemunha das incompreensões e problemas que a Companhia viveu mesmo recentemente. Entre estes, contam-se os tempos difíceis de quando se tratou da questão de alargar o 'quarto voto' de obediência ao Papa a todos os jesuítas. Aquilo que me dava segurança no tempo do Padre Arrupe era o fato de que ele era um homem de oração, um homem que passava muito tempo em oração. Recordo-o quando rezava sentado no chão, como fazem os japoneses. Por isso ele tinha a atitude certa e tomou as decisões corretas.
O modelo: Pedro Fabro, “padre reformado”
O diálogo com todos, mesmo os mais afastados e os adversários; a piedade simples, talvez uma certa ingenuidade, a disponibilidade imediata, o seu atento discernimento interior, o facto de ser um homem de grandes e fortes decisões e ao mesmo tempo capaz de ser assim doce, doce….
Inácio é um místico, não um asceta. Aborrece-me muito ouvir dizer que os Exercícios Espirituais são inacianos apenas porque são feitos em silêncio. Na verdade, os Exercícios podem ser perfeitamente inacianos também na vida corrente e sem o silêncio. A corrente que sublinha o ascetismo, o silêncio e a penitência é uma corrente deformada que se difundiu na própria Companhia, especialmente no âmbito espanhol. Pelo contrário, eu estou próximo da corrente mística, a de Louis Lallemant e de Jean-Joseph Surin. E Fabro era um místico.
A experiência de governo
Na minha experiência de superior na Companhia, para dizer a verdade, nem sempre me comportei assim, ou seja, fazendo as necessárias consultas. E isso não foi uma boa coisa. O meu governo como jesuíta no início tinha muitos defeitos. Estávamos num tempo difícil para a Companhia: tinha desaparecido uma inteira geração de jesuítas. Por isto, vi-me nomeado provincial ainda muito jovem. Tinha 36 anos: uma loucura. Era preciso enfrentar situações difíceis, e eu tomava as decisões de modo brusco e individualista. Sim, devo acrescentar, no entanto, uma coisa: quando entrego uma coisa a uma pessoa, confio totalmente nessa pessoa. Terá que cometer um erro verdadeiramente grande para que eu a repreenda. Mas, apesar disto, as pessoas acabam por se cansar do autoritarismo. O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador. Vivi um tempo de grande crise interior quando estava em Córdoba. Claro, não, não sou certamente como a Beata Imelda, mas nunca fui de direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas.
Digo estas coisas como uma experiência de vida e para ajudar a compreender quais são os perigos. Com o tempo aprendi muitas coisas. O Senhor permitiu esta pedagogia de governo, mesmo através dos meus defeitos e dos meus pecados. Assim, como arcebispo de Buenos Aires, fazia cada 15 dias uma reunião com os seis bispos auxiliares e várias vezes por ano com o Conselho Presbiteral. Colocavam-se perguntas e abria-se espaço para a discussão. Isto ajudou-me muito a tomar as melhores decisões. E agora ouço algumas pessoas que me dizem: 'Não consulte demasiado e decida'. Acredito, no entanto, que a consulta é muito importante. Os consistórios e os sínodos são, por exemplo, lugares importantes para tornar verdadeira e ativa esta consulta. É necessário torná-los, no entanto, menos rígidos na forma. Quero consultas reais, não formais. A consulta dos oito cardeais, este grupo outsider, não é uma decisão simplesmente minha, mas é fruto da vontade dos cardeais, tal como foi expressa nas Congregações Gerais antes do Conclave. E quero que seja uma consulta real, não formal.
Sentir com a Igreja
A imagem da Igreja de que gosto é a do povo santo e fiel de Deus. É a definição que uso mais vezes e é a da Lumen Gentium, no número 12. A pertença a um povo tem um forte valor teológico: Deus na história da salvação salvou um povo. Não existe plena identidade sem pertença a um povo. Ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus nos atrai considerando a complexa trama de relações interpessoais que se realizam na comunidade humana. Deus entra nesta dinâmica do povo.
O povo é sujeito. E a Igreja é o povo de Deus a caminho na história, com alegrias e dores. Sentire cum Ecclesia é para mim estar neste povo. E o conjunto dos fiéis é infalível no crer, e manifesta esta sua infallibilitas in credendo mediante o sentido sobrenatural da fé de todo o povo que caminha. É isto o que eu entendo hoje como o “sentir com a Igreja” de que fala Santo Inácio. Quando o diálogo entre as pessoas e o bispo e o Papa segue este caminho e é leal, então é assistido pelo Espírito Santo. Não é, portanto, um sentir ligado aos teólogos.
É como com Maria: se se quiser saber quem é, pergunta-se aos teólogos; se se quiser saber como amá-la, é necessário perguntá-lo ao povo. Por sua vez, Maria amou Jesus com coração de povo, como lemos no Magnificat. Não é preciso sequer pensar que a compreensão do sentir com a Igreja esteja ligada somente ao sentir com a sua parte hierárquica.
E, obviamente, é necessário estar bem atentos a não pensar que esta infallibilitas de todos os fiéis de que estou falando à luz do Concílio seja uma forma de populismo. Não: é a experiência da “Santa Madre Igreja hierárquica”, como lhe chamava Santo Inácio, da Igreja como povo de Deus, pastores e povo em conjunto. 
A Igreja é a totalidade do povo de Deus.
Vejo a santidade no povo de Deus, a sua santidade cotidiana. Existe uma “classe média da santidade” da qual todos podemos fazer parte, aquela de que fala Malègue.
Vejo a santidade no povo de Deus paciente: uma mulher que cria os filhos, um homem que trabalha para levar o pão para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com tantas feridas mas com um sorriso por terem servido o Senhor, as Irmãs que trabalham tanto e que vivem uma santidade escondida. Esta é, para mim, a santidade comum. Associo frequentemente a santidade à paciência: não só a santidade como hypomoné, o encarregar-se dos acontecimentos e circunstâncias da vida, mas também como constância no seguir em frente dia após dia. Esta é a santidade da Igreja militante de que fala também Santo Inácio. Esta é também a santidade dos meus pais: do meu pai, da minha mãe, da minha avó Rosa, que me fez tanto bem. No breviário tenho o testamento da minha avó Rosa e leio-o frequentemente: para mim é como uma oração. Ela é uma santa que sofreu tanto, também moralmente, e seguiu sempre em frente com coragem.
Esta Igreja com a qual devemos “sentir” é a casa de todos, não uma pequena capela que só pode conter um grupinho de pessoas selecionadas. Não devemos reduzir o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade. E a Igreja é Mãe. A Igreja é fecunda, deve sê-lo. Veja: quando me apercebo de comportamentos negativos de ministros da Igreja ou de consagrados ou consagradas, a primeira coisa que me vem à cabeça é: “Aqui está um solteirão ou aqui está uma solteirona”. Não são nem pais, nem mães. Não são capazes de gerar vida. Pelo contrário, quando leio, por exemplo, a vida dos missionários salesianos que foram para a Patagônia, leio uma história de vida, de fecundidade.
Um outro exemplo destes dias: vi que foi muito referido nos jornais o telefonema que fiz a um rapaz que me tinha escrito uma carta. Telefonei-lhe, porque aquela carta era tão bela, tão simples. Para mim isto foi um ato de fecundidade. Apercebi-me que é um jovem que está a crescer, sentiu em mim um pai, e assim eu disse-lhe alguma coisa sobre a sua vida. Um pai não pode dizer: “Não tenho nada que ver com isso”. Esta fecundidade me faz muito bem.
Igrejas jovens e Igrejas antigas
As Igrejas jovens desenvolvem uma síntese de fé, cultura e vida em devir, e, portanto, diferente da desenvolvida pelas Igrejas mais antigas. Para mim, a relação entre as Igrejas mais antigas e as mais recentes é semelhante à relação entre jovens e velhos numa sociedade: constroem o futuro, mas uns com a sua força e os outros com a sua sabedoria. Correm-se sempre riscos, obviamente; as Igrejas mais jovens correm o risco de se sentirem autossuficientes, as mais antigas correm o risco de querer impor às mais jovens os seus modelos culturais. Mas o futuro constrói-se conjuntamente.
A Igreja? Um hospital de campanha…
O Papa Bento teve um ato de santidade, de grandeza, de humildade. É um homem de Deus. Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de todo o resto. Curar as feridas, curar as feridas… E é necessário começar do básico.
A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: “Jesus Cristo te salvou". E os sacerdotes da Igreja devem ser, acima de tudo, sacerdotes de misericórdia. O confessor, por exemplo, corre sempre o risco de ser ou demasiado rigorista ou demasiado laxista. Nenhum dos dois é misericordioso, porque nenhum dos dois toma verdadeiramente a seu cargo a pessoa. O rigorista lava as mãos porque remete-o para o mandamento. O laxista lava as mãos dizendo simplesmente “isto não é pecado” ou coisas semelhantes. As pessoas têm de ser acompanhadas, as feridas têm de ser curadas.
Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora. Os sacerdotes devem ser misericordiosos, tomar conta das pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, anima o seu próximo. Isto é Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturais são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os sacerdotes do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado. Os bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paciência os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ninguém fique para trás, mas também para acompanhar o rebanho que tem o faro para encontrar novos caminhos.
Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fez, às vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia, coragem.
O primeiro Papa de uma ordem religiosa em 182 anos
Os religiosos são profetas. São os que escolheram um seguimento de Jesus, que imitam a sua vida com a obediência ao Pai, a pobreza, a vida de comunidade e a castidade. Neste sentido, os votos não podem cair em caricaturas; de outro modo, por exemplo, a vida comunitária torna-se um inferno, e a castidade, um modo de viver como solteirões. O voto de castidade deve ser um voto de fecundidade. Na Igreja, os religiosos são chamados em particular a ser profetas que testemunham como Jesus viveu nesta terra e que anunciam como o Reino de Deus será na sua perfeição. Um religioso nunca deve renunciar à profecia. Isto não significa contrapor-se à parte hierárquica da Igreja, mesmo se a função profética e a estrutura hierárquica não coincidem. Falo de uma proposta sempre positiva, que, no entanto, não deve ser medrosa. Pensemos naquilo que fizeram tantos grandes santos monges, religiosos e religiosas, desde Santo Antão, abade. Ser profeta pode significar, por vezes, fazer ruído, não sei como dizer. A profecia faz ruído, alarido, alguns chamam 'chinfrim'. Mas, na realidade, o seu carisma é o de ser fermento: a profecia anuncia o espírito do Evangelho.
Dicastérios romanos, regras do sínodo, ecumenismo
Os dicastérios romanos estão ao serviço do Papa e dos bispos: devem ajudar tanto as Igrejas particulares como as Conferências Episcopais. São mecanismos de ajuda. Nalguns casos, quando não são bem entendidos, correm o risco, pelo contrário, de se tornarem organismos de censura. É impressionante ver as denúncias de falta de ortodoxia que chegam a Roma. Creio que os casos devem ser estudados pelas Conferências Episcopais locais, às quais pode chegar uma válida ajuda de Roma. De facto, os casos tratam-se melhor no local. Os dicastérios romanos são mediadores, nem intermediários nem gestores.
Devemos caminhar juntos: as pessoas, os Bispos e o Papa. O sínodo vive-se em vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. Isto poderá também ter valor ecumênico, especialmente com os nossos irmãos ortodoxos. Deles se pode aprender mais sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradição do sínodo. O esforço de reflexão comum, vendo o modo como se governava a Igreja nos primeiros séculos, antes da ruptura entre Oriente e Ocidente, dará frutos a seu tempo. Nas relações ecumênicas isto é importante: não só conhecer-se melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos outros como um dom também para nós. Quero prosseguir a reflexão sobre como exercitar o primado petrino, já iniciada em 2007 pela Comissão Mista, e que levou à assinatura do documento de Ravena. É preciso continuar neste caminho.
Devemos caminhar unidos nas diferenças: não há outro caminho para nos unirmos. Este é o caminho de Jesus.
É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do “machismo de saias”, porque, na verdade, a mulher tem uma estrutura diferente do homem. E, pelo contrário, os argumentos que ouço sobre o papel da mulher são muitas vezes inspirados precisamente numa ideologia machista. As mulheres têm colocado perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel. A mulher, para Igreja, é imprescindível. Maria, uma mulher, é mais importante que os bispos. Digo isto, porque não se deve confundir a função com a dignidade. É necessário aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja. É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. Só realizando esta etapa se poderá refletir melhor sobre a função da mulher no interior da Igreja. O gênio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exatamente esse: refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.
O Concílio Vaticano II
O (Concílio) Vaticano II foi uma releitura do Evangelho à luz da cultura contemporânea. Produziu um movimento de renovação que vem simplesmente do próprio Evangelho. Os frutos são enormes. Basta recordar a liturgia. O trabalho da reforma litúrgica foi um serviço ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situação histórica concreta. Sim, existem linhas de hermenêutica de continuidade e de descontinuidade. Uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível. Depois existem questões particulares, como a liturgia segundo o Vetus Ordo (O rito usado até ao Concílio Vaticano II). Penso que a escolha do Papa Bento XVI foi prudente, ligada à ajuda a algumas pessoas que têm esta sensibilidade particular. Considero, no entanto, preocupante o risco de ideologização do Vetus Ordo, a sua instrumentalização.
Procurar e encontrar Deus em todas as coisas
O que eu disse no Rio tem um valor temporal. Existe, de fato, a tentação de procurar Deus no passado ou no futuro. Deus está, certamente, no passado porque está nas pegadas que deixou. E está também no futuro como promessa. Mas o Deus “concreto”, digamos assim, é hoje. Por isso, as queixas nunca, nunca, nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje de como o mundo anda “bárbaro” acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa. Não. Deus deve ser encontrado no hoje.
Deus manifesta-se numa revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço cristaliza-os. Deus encontra-se no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus manifesta-se no tempo e está presente nos processos da História. Isto faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas. E exige paciência, espera.
Encontrar Deus em todas as coisas não é um eureka empírico. No fundo, quando desejamos encontrar Deus, queremos constatá-lo de imediato com um método empírico. Assim não se encontra Deus. Ele encontra-se na brisa ligeira sentida por Elias. Os sentidos que constatam Deus são os que Santo Inácio designa por “sentidos espirituais”. Inácio pede para abrir a sensibilidade espiritual para encontrar Deus para além de uma abordagem puramente empírica. É necessária uma atitude contemplativa: é o sentir que se vai pelo bom caminho da compreensão e do afeto no que diz respeito às coisas e às situações. O sinal de que se está neste bom caminho é o sinal da paz profunda, da consolação espiritual, do amor de Deus e de todas as coisas em Deus.
Sobre certezas e erros
Sim, neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem que ser assim. Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e não aflora uma margem de incerteza, então não está bem. Para mim, esta é uma chave importante. Se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas. É necessário ser humilde. A incerteza existe em cada discernimento verdadeiro que se abre à confirmação da consolação espiritual".
O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas é, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrogância: “Deus está aqui”. Encontraremos somente um Deus à nossa medida. A atitude correta é a agostiniana: procurar a Deus para O encontrar e encontrá-lo para O procurar sempre. E muitas vezes procura-se por tentativas, como se lê na Bíblia. É esta a experiência dos grandes Pais da Fé, que são o nosso modelo. É necessário reler o capítulo 11 da Carta aos Hebreus. Abraão partiu sem saber para onde ia, pela fé. Todos os nossos antepassados da fé morreram vendo os bens prometidos, mas longe… A nossa vida não nos é dada como um livreto de ópera onde está tudo escrito, mas é caminhar, fazer, procurar, ver… Deve-se entrar na aventura da procura do encontro e do deixar-se procurar e deixar-se encontrar por Deus.
Porque Deus está antes, Deus está sempre antes, Deus antecede. Deus é um pouco como a flor da amendoeira da tua Sicília, Antônio, que floresce sempre antes. Lemos nos profetas. Portanto, encontra-se Deus caminhando, no caminho. E neste ponto alguém poderia dizer que isto é relativismo. É relativismo? Sim, se é mal interpretado, como espécie de panteísmo indistinto. Não, se é interpretado em sentido bíblico, onde Deus é sempre uma surpresa e, portanto, não sabes nunca onde e como O encontras, não és tu a fixar os tempos e os lugares do encontro com Ele. É necessário, portanto, discernir o encontro. Por isso, o discernimento é fundamental.
Se o cristão é restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à 'segurança' doutrinária, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas. Tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destruída pelos vícios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e deve-se procurar na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço onde a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus.
Devemos ser otimistas?
Não gosto de usar a palavra “otimismo”, porque indica uma atitude psicológica. Gosto, pelo contrário, de usar a palavra “esperança”, segundo aquilo que se lê no capítulo 11 da "Carta aos Hebreus", como já citei. Os Pais continuaram a caminhar, atravessando grandes dificuldades. E a esperança não engana, como lemos na "Carta aos Romanos". Pensa, pelo contrário, no primeiro enigma da ópera “Turandot”, de Puccini.
Aqui está, a esperança cristã não é um fantasma e não engana. É uma virtude teologal e, portanto, definitivamente, um presente de Deus que não se pode reduzir ao otimismo, que é apenas humano. Deus não engana a esperança, não pode negar-Se a Si mesmo. Deus é todo promessa.
A arte e a criatividade
Gostei muito de autores diferentes entre si. Gosto muitíssimo de Dostoiévski e Hölderlin. De Hölderlin quero recordar aquela poesia para o aniversário da sua avó, que é de grande beleza e que me fez tanto bem espiritual. É aquela que termina com o verso “Que o homem mantenha o que o rapaz prometeu”. Impressionou-me também porque amava muito a minha avó Rosa, e ali Hölderlin compara a sua avó a Maria que gerou Jesus, que para ele é o amigo da terra que não considerou ninguém estrangeiro. Li "I Promessi Sposi" três vezes e tenho-o agora sobre a mesa para reler. Manzoni deu-me muito. A minha avó, quando eu era criança, ensinou-me de cor o início dos "Promessi Sposi": “Quel ramo del lago di Como, che volge a mezzogiorno, tra due catene non interrotte di monti…”. Também gostei muito de Gerard Manley Hopkins.
Na pintura admiro Caravaggio: as suas telas falam-me. Mas também Chagall, com a sua “Crucificação Branca”…
Na música gosto muito de Mozart, obviamente. Aquele “Et Incarnatus est” da sua “Missa em Dó” é insuperável: leva-te a Deus! Gosto muito de Mozart executado por Clara Haskil. Mozart preenche-me: não posso pensá-lo, devo ouvi-lo. Gosto de ouvir Beethoven, mas prometeicamente. E o intérprete mais prometeico para mim é Furtwängler. E depois as Paixões de Bach. O trecho de Bach de que gosto muito é o “Erbarme Dich”, o pranto de Pedro da Paixão segundo São Mateus. Sublime. Depois, num outro nível, não tão íntimo, gosto de Wagner. Gosto de ouvi-lo, mas não sempre. “A Tetralogia do Anel” executada por Furtwängler no Scala nos anos 50 é, para mim, a melhor. Mas também o “Parsifal” executado em 1962 por Knappertsbusch.
Deveríamos também falar do cinema. “La strada” de Fellini é talvez o filme de que mais gostei. Identifico-me com aquele filme, no qual está implícita uma referência a São Francisco. Depois, creio ter visto todos os filmes com Anna Magnani e Aldo Fabrizi quando eu tinha entre 10 e 12 anos. Um outro filme de que muito gostei é "Roma, cidade aberta". Devo a minha cultura cinematográfica sobretudo aos meus pais, que nos levavam frequentemente ao cinema.
Em todo o caso, em geral gosto muito dos artistas trágicos, especialmente os mais clássicos. Há uma bela definição que Cervantes coloca na boca do bacharel Carrasco para fazer o elogio da história de Dom Quixote: “Os rapazes têm-na entre as mãos, os jovens leem-na, os adultos entendem-na, os velhos elogiam-na”. Esta, para mim, pode ser uma boa definição para os clássicos.
Foi uma coisa um pouco arriscada (sobre seu período como professor de Literatura, aos 28 anos). Devia fazer de tal modo que os meus alunos estudassem “El Cid”. Mas os rapazes não gostavam. Pediam-me para ler García Lorca. Então decidi que deveriam estudar "El Cid" em casa e durante as lições eu trataria os autores de que os rapazes mais gostavam. Obviamente, os jovens queriam ler as obras literárias mais “picantes”, contemporâneas como “La casada infiel” ou clássicas como "La Celestina" de Fernando de Rojas. Mas, ao ler estas coisas que os atraíam naquele momento, ganhavam mais gosto em geral pela literatura, pela poesia e passavam a outros autores. Para mim, esta foi uma grande experiência. Cumpri o programa, mas de modo desestruturado, isto é, não ordenado segundo aquilo que estava previsto, mas segundo uma ordem que resultava natural na leitura dos autores. E esta modalidade tinha muito a ver comigo: não gostava de fazer uma programação rígida, mas eventualmente saber mais ou menos onde chegar. Então comecei também a fazê-los escrever. No final decidi dar a Borges dois contos escritos pelos meus rapazes. Conhecia a sua secretária, que tinha sido a minha professora de piano. Borges gostou muitíssimo e então ele propôs escrever a introdução de uma coletânea.
(A criatividade) Para um jesuíta é extremamente importante! Um jesuíta deve ser criativo.
Fronteiras e laboratórios
A nossa fé não é uma fé-laboratório, mas uma fé-caminho, uma fé histórica. Deus revelou-se como história, não como um compêndio de verdades abstratas. Tenho medo dos laboratórios, porque no laboratório pegam-se nos problemas e levam-se para a própria casa, para domesticá-los, para os envernizar, fora do seu contexto. Não é preciso levar a fronteira para casa, mas viver na fronteira e ser audazes.
Quando se fala de problemas sociais, uma coisa é reunir-se para estudar o problema da droga numa favela e uma outra coisa é ir lá, morar e compreender o problema a partir de dentro e estudá-lo. Há uma carta genial do P. Arrupe aos Centros de Pesquisa e Ação Social (CIAS) sobre a pobreza, na qual se diz claramente que não se pode falar de pobreza se não se experimenta uma inserção direta nos lugares nos quais ela está. Esta palavra “inserção” é perigosa, porque alguns religiosos a tomaram como uma moda, e aconteceram desastres por falta de discernimento. Mas é verdadeiramente importante.
E as fronteiras são tantas. Pensemos nas religiosas que vivem nos hospitais: elas vivem nas fronteiras. Eu estou vivo graças a uma delas. Quando tive o problema no pulmão no hospital, o médico me receitou penicilina e estreptomicina em certas doses. A irmã que estava de serviço triplicou as doses, porque tinha intuição, sabia o que fazer, porque estava com os doentes todo o dia. O médico, que era verdadeiramente bom, vivia no seu laboratório, a irmã vivia na fronteira e dialogava com a fronteira todos os dias. Domesticar a fronteira significa limitar-se a falar de uma posição distante, fechar-se nos laboratórios. São coisas úteis, mas a reflexão para nós deve sempre partir da experiência.
Como o homem compreende a si mesmo
Mesmo o dogma da religião cristã deve seguir estas leis de aperfeiçoamento. Progride, consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo, aprofundando-se com a idade.
De resto, em cada época o homem procura compreender e exprimir melhor a sua própria realidade. E assim o homem, com o tempo, muda o modo de se perceber a si mesmo: uma coisa é o homem que se exprime esculpindo a Nike (Vitória) de Samotrácia, outra a de Caravaggio, outra a de Chagall e ainda outra a de Dalí. Também as formas de expressão da verdade podem ser multiformes e isto é necessário para a transmissão da mensagem evangélica no seu significado imutável.
O homem está à procura de si mesmo, e, obviamente, nesta procura pode também cometer erros. A Igreja viveu tempos de genialidade, como, por exemplo, o do tomismo. Mas viveu também tempos de decadência de pensamento. Por exemplo, não podemos confundir a genialidade do tomismo com o tomismo decadente. Eu, infelizmente, estudei a filosofia com manuais de tomismo decadente. No pensar o homem, portanto, a Igreja deveria tender à genialidade, não à decadência.
Quando é que uma expressão do pensamento não é válida? Quando o pensamento perde de vista o humano ou até quando tem medo do humano ou se deixa enganar sobre si mesmo. É o pensamento enganado que pode ser representado como Ulisses diante do canto das sereias, ou como Tannhäuser, rodeado numa orgia por sátiros e bacantes, ou como Parsifal, no segundo ato da ópera wagneriana, no castelo de Klingsor. O pensamento da Igreja deve recuperar genialidade e entender sempre melhor como é que o homem se compreende hoje, para desenvolver e aprofundar o próprio ensino.
Rezar
Rezo o Ofício todas as manhãs. Gosto de rezar com os Salmos. Depois, a seguir, celebro a Missa. Rezo o Rosário. O que verdadeiramente prefiro é a Adoração vespertina, mesmo quando me distraio e penso em outra coisa ou mesmo quando adormeço rezando. Assim, à tarde, entre as sete e as oito, estou diante do Santíssimo durante uma hora, em adoração. Mas também rezo mentalmente quando espero no dentista ou em outros momentos do dia.
E a oração é para mim uma oração “memoriosa”, cheia de memória, de recordações, também memória da minha história ou daquilo que o Senhor fez na sua Igreja ou numa paróquia particular. Para mim, é a memória de que Santo Inácio fala na Primeira Semana dos "Exercícios", no encontro misericordioso com Cristo Crucificado. E pergunto-me: “Que fiz por Cristo? Que faço por Cristo? Que farei por Cristo?” É a memória de que fala Inácio também na Contemplatio ad amorem, quando pede para trazer à memória os benefícios recebidos. Mas, sobretudo, eu sei também que o Senhor tem memória de mim. Eu posso esquecer-me d’Ele, mas sei que Ele nunca, nunca, se esquece de mim. A memória funda radicalmente o coração de um jesuíta: é a memória da graça, a memória de que se fala no Deuteronômio, a memória das obras de Deus que estão na base da aliança entre Deus e o seu povo. É esta memória que me faz filho e me faz ser também pai



TRÍDUO ORACIONAL COM SÃO PIO

REZE DIARIAMENTE AS SEGUINTES ORAÇÕES DURANTE O TRÍDUO

Oração de São Pio

Ó Jesus,destrói em mim tudo que não é do Teu gosto.Escreve as Tuas dores no meu coração com o fogo da Tua caridade.E aperta-me fortemente junto de ti,suave e eternamente,para que não Te abandone nas Tuas dores.Que eu possa repousar-me sobre Teu coração nas dores da vida para conseguir a restauração. Que meu espírito não tenha outro desejo que viver ao Teu lado no horto e saciar-me nas penas do Teu coração. Que a minha alma se incline ao Teu sangue e se alimente contigo do pão dos Teus sofrimentos.

Assim seja.

FICA COMIGO,SENHOR !

Fica comigo, Senhor, pois preciso da tua presença para não te esquecer. Sabes quão facilmente posso te abandonar.
Fica comigo, Senhor, porque sou fraco e preciso da tua força para não cair.
Fica comigo, Senhor, porque és minha vida, e sem ti perco o fervor.
Fica comigo, Senhor, porque és minha luz, e sem ti reina a escuridão.
Fica comigo, Senhor, para me mostrar tua vontade.
Fica comigo, Senhor, para que ouça tua voz e te siga.
Fica comigo, Senhor, pois desejo amar-te e permanecer sempre em tua companhia.
Fica comigo, Senhor, se queres que te seja fiel.
Fica comigo, Senhor, porque, por mais pobre que seja minha alma, quero que se transforme num lugar de consolação para ti, um ninho de amor.
Fica comigo, Jesus, pois se faz tarde e o dia chega ao fim; a vida passa, e a morte, o julgamento e a eternidade se aproximam. Preciso de ti para renovar minhas energias e não parar no caminho.
Está ficando tarde, a morte avança e eu tenho medo da escuridão, das tentações, da falta de fé, da cruz, das tristezas. Oh, quanto preciso de ti, meu Jesus, nesta noite de exílio.
Fica comigo nesta noite, Jesus, pois ao longo da vida, com todos os seus perigos, eu preciso de ti.
Faze, Senhor, que te reconheça como te reconheceram teus discípulos ao partir do pão, a fim de que a Comunhão Eucarística seja a luz a dissipar a escuridão, a força a me sustentar, a única alegria do meu coração.
Fica comigo, Senhor, porque na hora da morte quero estar unido a ti, se não pela Comunhão, ao menos pela graça e pelo amor.
Fica comigo, Jesus. Não peço consolações divinas, porque não as mereço, mas apenas o presente da tua presença, ah, isso sim te suplico!
Fica comigo, Senhor, pois é só a ti que procuro, teu amor, tua graça, tua vontade, teu coração, teu Espírito, porque te amo, e a única recompensa que te peço é poder amar-te sempre mais.

Como este amor resoluto desejo amar-te de todo o coração enquanto estiver na terra, para continuar a te amar perfeitamente por toda a eternidade. Amém.